terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

MOACYR LUZ

Fala, Moa!


Moacyr Luz: violão, botequim e inspiração para fazer samba

Por Julio Cesar Cardoso de Barros

Violonista exuberante, que estudou com Hélio Delmiro, compositor profícuo, carioca da gema nascido em Jacarepaguá,Rio de Janeiro, no dia 5 de abril de 1958, Moacyr Luz, é autor de Saudades da Guanabara, uma linda homenagem a sua cidade, feita em parceria com Aldir Blanc e Paulo Cesar Pinheiro. Tem quase duas centenas de músicas gravadas (só em parceria com Aldir Blanc seriam 90) por artistas do primeiro time, como Maria Bethânia, Lana Bittencourt, Gilberto Gil, Nana Caymmi e Leny Andrade. Cantor originalíssimo, estreou em disco com o CD Moacyr Luz (1988).

Moacyr canta Saudades da Guanabara

ao lado de Nilze Carvalho, Anna Luisa e

Ana Costa:

Seguiram-se Vitória da Ilusão (1995), Mandingueiro (1998), Na Galeria (2001), Samba da Cidade (2003), A Sedução Carioca do Poeta Brasileiro (2005), inspirado em versos de grandes poetas brasileiros, Voz & Violão (2005), Armando Marçal e Moacyr Luz (2006) e finalmente Batucando (2009), sempre com boa receptividade da crítica. O disco Eternos Guardiões mostra uma outra faceta de Moacyr, a do produtor, já revelada anteriormente nos CDs de Casquinha, compositor da Velha Guarda da Portela, de Guilherme de Brito, o eterno parceiro de Nelson Cavaquinho e no disco Samba do TrabalhadorRenascença Samba Clube, reunindo artistas que frequentavam às segundas-feiras o Samba do Trabalhador, no Clube Renascença, tradicional reduto dos negros cariocas no Andaraí. Moacyr, boêmio contumaz, virou um especialista em botequim, tendo escrito o Manual de Sobrevivência nos Butiquins Mais Vagabundos (Senac Rio, 125 páginas).

Manual: vida de botequeiro

Ilustrado pelo cartunista Jaguar, o livro, contém entrevistas com boêmios renomados e crônicas de casos testemunhados por Moacyr em décadas de aventura etílica. É dele também o Botequim de Bêbado Tem Dono, com ilustraçoes de Chico Caruso. Dia 7 de agosto, ele lança no Pirajá, em São Paulo, um livro sobre a história do bar. Moacyr falou ao Passarela:

Moacyr, você produziu discos do Guilherme de Brito e do Casquinha, além do CD do pagode do Renascença. Tomou gosto pela produção?Gosto de trabalhar. A fama de boêmio não se justifica (risos). Ainda escrevo livros, vez por outra. Na verdade, os trabalhos que você citou funcionam muito como registro, modestamente, a história de algum momento.

Como pintou a idéia de fazer esse disco com cinco sambistas da velha guarda do samba carioca?Duas frentes: trabalhei como curador do Centro de Referência da Música Carioca. Ali, eu pensava o tempo todo em unir elos do samba – a geração que chega com inúmeros esquecidos pelo caminho. No Renascença, fui estreitando mais as relações com esses compositores de escola de samba, raramente solicitados fora da disputa do samba-de-enredo, desde que chegaram ao fim os chamados sambas de meio de ano.

O que não falta no Rio é bom compositor da antiga dando sopa nas escolas, bares e terreiros. Por que esses cinco especificamente?Dos cinco gravados, quatro são amigos do cotidiano, de visita mútua. A vontade é fazer desse trabalho o volume 1. O formato foi decidido pela disponibilidade do projeto. As raízes dessa árvore são profundas…

Nós temos aí o Zé Catimba, cobra-criada com uma obra invejável, e Walter Peçanha, muito pouco conhecido, fora do círculo mais íntimo do samba. O que une os dois?O zé é meu amigo. Existe uma gratidão na participação dele nesse disco. O walter é uma necessidade. Soa pretencioso, mas  seria injusto com a vida desse artista popular o anonimato como pena de morte… ele se renovou.

A idéia é documentar, gravar um registro de um tipo de samba que se faz na cidade ou você e a gravadora tinham objetivos comerciais mais ambiciosos?Nem esperava que uma gravadora importante como  a Biscoito Fino abraçasse a idéia. Repito, o projeto nasceu ainda no Centro de Referência. Não houve interesse da nova Secretaria de Cultura carioca em dar vida a esse registro. Nossa gestão pensava em abrir um selo dentro da unidade, até porque, com exceção dos grandes nomes da música brasileira, a venda de disco hoje é a mínima.

Seu último disco foi Batucando, no ano passado. Quando você vai entrar em estúdio novamente?
Achei que fosse fazer meu primeiro DVD. Chegamos a sentar na gravadora e rabiscar um formato. Tenho feito músicas com  parceiros mais jovens como Roberto Didio, de São Paulo, e o carioca Rogério Batalha. Em tempo: convidado pelo Batucadas Brasileiras, fiz com o lendário letrista Luiz Galvão, dos Novos Baianos, oito músicas para um projeto autoral dessa escola de percussão. Novas músicas minhas também estão entrando no repertório dos meus intérpretes preferidos (risos).

 


VEJA.COM 27/09/2010

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