sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

MARTINHO DA VILA

Martinho de fevereiro



Por Julio Cesar Cardoso de Barros


Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila, faz aniversário em fevereiro (dia 12), mês do Carnaval. Martinho é um grande nome do samba e, na Vila, só perde para Noel Rosa. Os dois nomes dão brilho à Vila e ao samba carioca. No ano do centenário de Noel, 2010, o cantor e compositor homenageou o precursor do gênero com o disco Poeta da Cidade. Com arranjos de Maurício Carrilho e Rildo Hora e a participação das filhas Martinália (Minha Viola e Rapaz Folgado), Analimar (Coisas Nossas e Quando o Samba Acabou), e Maíra (Último Desejo), o disco nasceu de um convite do departamento de Letras da PUC-Rio para que o sambista colaborasse na pesquisa de material para compor o encarte da edição de um livro de ensaios sobre o compositor de Vila Isabel.


Martinho canta Noel

“Eu sempre pensei em gravar um disco com algumas coisas de Noel, mas não andei com a ideia. Até que o pessoal da PUC pediu que eu gravasse algumas músicas, que estariam num CD encartado no livro, mas acontece que o CD ficou pronto e o livro, não. Acho que lidar com 14 escritores é mais difícil, fiz o meu trabalho tranquilamente e terminei. Aí o pessoal da Biscoito Fino ficou sabendo e veio me dizer que a gente não podia deixar a data passar em branco”, conta Martinho.

Making off: Martinho e Maíra cantam Último Desejo:

  O sambista, que nasceu Martinho José Ferreira, há 72 anos, no município fluminense de Duas Barras, foi rebatizado Martinho da Vila no início dos anos 60, ao chegar à Escola de Samba Unidos de Vila Isabel como o mais novo integrante da ala de compositores. Ali, teve seu destino cruzado com o do poeta. Logo no samba de apresentação, necessário para seu ingresso na ala da escola, composta por grandes nomes como Paulo Brazão, Rodolfo e Antonio Grande, Martinho cantava:

 Boa note Vila Isabel
Quero brincar meu carnaval
Na terra de Noel

Foi também uma homenagem a Noel o seu último samba-enredo, aquele que a Vila cantou no Carnaval de 2010, com enredo sugerido pelo próprio Martinho. Em “Noel: a presença do poeta da Vila”, ele cantou:

Se um dia na orgia me chamassem
Com saudades perguntassem
Por onde anda Noel?
Com toda a minha fé responderia
Vaga na noite e no dia
Vive na terra e no céu

Ouça:
 Martinho saiu de Duas Barras, no interior fluminense, aos 4 anos de idade (Mais tarde, quando já era um cantor famoso, voltou à cidade e comprou a fazenda onde nasceu e na qual seus pais trabalharam duro). Foi morar na Serra dos Pretos Forros, nos limites da Zona Norte com a Zona Oeste do Rio, aos pés do maciço da Tijuca, em Água Santa, onde garoto conheceu os folguedos carnavalescos cariocas. Mais tarde, na escola Aprendizes da Boca do Mato, na região do Engenho de Dentro, virou Zé Ferreira, um compositor respeitado nas rodas de samba. Na Vila Isabel, ele fez história. Em 1967 foi o campeão do samba-enredo com Carnaval de Ilusões. Repetiu o feito nos anos seguintes, com Quatro Séculos de Modas e Costumes (68), Iaiá do Cais Dourado (69) e Glórias e Tradições Gaúchas (70). Em 1972, depois de um ano de folga, voltou a vencer com Onde o Brasil Aprendeu a Liberdade. De lá para cá, venceu o concurso para a escolha do samba-enredo da escola outras vezes, incluindo o deste ano. Paralelamente ao seu sucesso estrondoso na escola, Martinho emplacou o samba Menina Moça, defendido por Jamelão, no III Festival da Canção da TV Record (1967), e no IV Festival (1968), classificou, como intérprete, Batuque na Cozinha, de João da Baiana, que seria um de seus primeiros grandes sucessos. Em 1969, lançou seu primeiro LP, Martinho da Vila, e no ano seguinte deu baixa como sargento do Exército, onde exercia funções burocráticas na área contábil.

Noel: repertório relembrado pelo sambista Martinho

Só recentemente Martinho deixou a Vila Isabel para morar na Barra. A quarta troca de vizinhança não mudará a cabeça do menino Martinho de Duas Barras, como não mudou a cabeça de Zé Ferreira, quando ele deixou a Serra dos Pretos Forros para morar na Vila. De cada recanto por onde passou, Martinho tirou suas lições de vida e enriqueceu seu repertório. Ele é quem diz:

Eu nasci numa fazenda
E fui criado na favela
Namorei mulher casada
Fui homem de moça donzela
Treze anos de caserna
Me deram boa lição
Fui formado na Vila Isabel
Fiz do samba profissão

O sambista é freqüentador da Academia Brasileira de Letras, convidado por alguns imortais para longos papos aos quais comparece sem constrangimento e cheio de razão:

Eu cresci no morro
E me criei na cidade
Saí do submundo
E penetrei no seio da alta sociedade
E já hoje em dia pego o meu carro
E vou à boate
Banquete e coquetel
Não sou tatibitati
Tenho argumento
Pra qualquer bacharel

Martinho foi inclusive estimulado a concorrer a uma vaga, montado nas páginas de seus dez livros publicados, entre romances, infantis e memórias. Em 2010, ele não se intimidou com o porte dos concorrentes à vaga deixada pelo bibliófilo e empresário José Mindlin. Azarão entre o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, que acabou vencendo, o sociólogo Muniz Sodré, presidente da Biblioteca Nacional, que levou 8 votos, e Eros Grau, então ministro do Supremo, que obteve 10 votos, Martinho correu por fora, não obteve nenhum voto, mas não se afetou. Se a chuva forte da Zona Norte não o molhou, não seria o sereno da ABL que o molharia. “Achei que era só dizer que queria ser imortal e pronto. Mas tive de escrever uma carta e mandar um telegrama. Te-le-gra-ma, acredita?”.

MAÍRA DE FREITAS


Sexta dos oito filhos do sambista Martinho da Vila, Maíra Freitas é uma pianista clássica que participa do disco Poeta da Cidade, na faixa Último Desejo, na qual canta e toca o sucesso romântico de Noel. Aos 24 anos, ela fez o conservatório da Universidade Federal do Rio de Janeiro e já participou com destaque de concursos internacionais de piano. Filha do cantor com  Rita Freitas, porta-bandeira do Salgueiro vencedora de cinco Estandartes de Ouro, Maíra já havia feito incursões pela música popular ao se juntar a um grupo de fãs de Roberto Carlos no bloco Exalta Rei, que emocionou o cantor no carnaval de 2009, no bairro carioca da Urca, e depois virou banda. Em março passado, ela fez um recital em duo com o pai na Sala Cecília Meirelles, no Rio, no Concerto Pop-Clássico, Recital de Voz e Piano. No repertório, composições de Chopin, Pixinguinha, Villa-Lobos, Jacob do Bandolim, Martinho da Vila e da própria Maíra. “Antes disso,  eu só cantava em festa, de maneira informal”, diz Maíra, que prepara seu primeiro disco pela Biscoito Fino.  

VEJA.COM 27/09/2010


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