segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

MARISA GATA MANSA

Doçura felina

Marisa canta Antonio Maria


Com músicas de Antonio Maria,
Marisa Gata Mansa volta ao disco
em grande forma.

Por Julio Cesar Cardoso de Barros

Depois de um jejum de vinte anos sem pisar num estúdio de gravadora, a cantora Marisa volta ao disco com um repertório perfeito para a voz suave que lhe valeu o apelido de Gata Mansa. É o que se pode conferir no CD Encontro com Antonio Maria, que acaba de sair do forno com catorze das melhores músicas do compositor pernambucano, entre elas o Frevo nº 2 do Recife, clássico do gênero que consagrou versos como saudade que tenho/são maracatus retardados/que voltam para casa cansados com seus estandartes no ar.
Marisa Vértulo Brandão, 64 anos, era cantora de orquestra quando entrou em contato com a bossa nova. Foi nesse meio que conheceu o jovem João Gilberto, recém-saído do grupo Garotos da Lua, que a convidou para gravar uma de suas músicas. Corria o ano de 1953 e a garota estreava em disco com Você Esteve com Meu Bem, a primeira de um repertório primoroso em que se destacam sucessos como Chega de Saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Viagem, de Paulo César Pinheiro e João Aquino. O disco que chega agora às lojas é o ótimo subproduto de um projeto que começou como espetáculo teatral, mas até agora segue à espera de patrocínio. Embora se tenha antecipado ao show que lhe daria origem, o disco tem vida própria e realiza um antigo sonho de Marisa, que era colocar num mesmo trabalho o filé da produção desse grande compositor.

O novo disco: resgatando cronista compositor

Coração sofredor — Filho e neto de usineiros pernambucanos, Antonio Maria cursou o colégio Marista do Recife, estudou francês e agronomia e trabalhou como técnico em projetos de irrigação de cana nas propriedades da família. Mas seu mundo, pensava ele, era o rádio. No Rio de Janeiro, para onde se mudou em 1940, aos 19 anos de idade, trabalhou como diretor de produção em emissoras de rádio e televisão e durante quinze anos publicou crônicas diárias em jornais cariocas.
Intuitivo, não tocava nenhum instrumento para compor, embora tivesse estudado piano durante a infância no Recife. Sua carreira de compositor começou em grande estilo, com a gravação em 1952 de Ninguém Me Ama, uma parceria com o conterrâneo Fernando Lobo, na voz de Nora Ney, regravada centenas de vezes desde então. A última delas neste disco de Marisa, com uma participação inusitada do ator Reinaldo Gonzaga, com quem ela pretende dividir o espetáculo ainda inédito. Antonio Maria morreu em 1964, aos 43 anos de idade, com o coração cheio de paixão e cardiopatias.
Dono de um humor cortante, não poupava a si mesmo da fina ironia: “Há homens por quem as mulheres se apaixonam à primeira vista. Já eu preciso conversar três horas até que elas esqueçam minha cara”. Esse tom amargo aparece em suas canções sem o humor das crônicas que o celebrizaram. Se eu morresse amanhã de manhã/ não faria falta a ninguém e Ninguém me ama/Ninguém me quer (com Fernando Lobo) são exemplares de sua poesia contemplados no álbum. Exuberante em seu lirismo, Antonio Maria tem neste CD algumas de suas melhores parcerias. De seu trabalho com Luís Bonfá, Marisa gravou Manhã de Carnaval e Samba de Orfeu, ambos da trilha sonora do filme Orfeu do Carnaval, de Marcel Camus. Com Pernambuco, a regravação de A Canção dos Seus Olhos, um antigo sucesso de Marisa nos anos 60, e, a mais famosa, O Amor e a Rosa, faixa de abertura do disco. Recuperada de uma isquemia que a impediu de exercer a profissão durante mais de um ano, Marisa retorna em grande forma, com a mesma voz doce da menina lançada por João Gilberto.

VEJA, 08/10/1997.

AS DIVAS DO RÁDIO

Livro e CD relembram nossas grandes cantoras 

Nora Ney, Inezita Barroso e Isaurinha Garcia: divas do rádio

Por Julio Cesar Cardoso de Barros

O livro
A editora Casa da Palavra acaba de lançar um livro que fará a festa dos saudosistas e servirá de iniciação dos mais jovens nos anos de ouro do rádio brasileiro. Trata-se de
As Divas do Rádio Nacional – As vozes eternas da Era de Ouro, de Ronaldo Conde Aguiar. Ronaldo é autor doAlmanaque da Rádio Nacional, um livro que já falava das divas da música brasileira, dos programas humorísticos hospedados naquela célebre emissora, dos astros das radionovelas. Na nova investida nesse veio riquíssimo da história do rádio, ele foca 14 cantoras que marcaram época no éter, como diriam os velhos locutores. Conta histórias, algumas muito conhecidas, outras pouco ou nada, dos bastidores do rádio e da vida das artistas. Um CD, que acompanha o livro, dedica uma faixa para cada uma das cantoras, em gravações originais de um de seus mais representativos sucessos. O livro nos conta como Dolores Duran iniciou-se na vida artística profissional cantando na boate Vogue, no Rio, aos 16 anos, e de sua morte prematura. Relembra o drama da separação de Dalva de Oliveira, do final de vida difícil das irmãs Batista. Nos fala do ambiente artístico dos anos 40 e 50, no qual um Rio de Janeiro provinciano expunha à curiosidade pública os menores atos e gestos dos grandes nomes do rádio. Seus dramas eram discutidos nos cafés e bondes. Suas vidas reviradas pelas candinhas da imprensa. Fofocas sobre a suposta tentativa de suicídio de Nora Ney, recém aparecida na cena artística com sua voz grave e suas interpretações dramáticas, ou de como Isaurinha Garcia, driblando os costumes, dava as cartas nas relações com o sexo oposto, se lixando para a moral hipócrita, e submissa numa relação conturbada com o tecladista pernambucano Walter Wanderley (1932-1986). Um livro delicioso para se ler ouvindo um disco excepcional, tanto pela qualidade das músicas e das interpretações quanto pela boa reprodução das faixas.


Casos da Era de Ouro

 O disco 
Dolores Duran canta seu clássico da fossa “A Noite do Meu Bem” (1959). Zezé Gonzaga (1926-2008), a preferida de maestros e compositores de renome, interpreta de Radamés Gnatalli e Hermínio Bello de Carvalho “Sou Apenas Uma Senhora que Ainda Canta” (2002), feita em sua homenagem, surpreendendo pela boa forma aos 76 anos. Maysa canta de sua autoria “Ouça”, superconhecida do público. Ademilde Fonseca, a velocista do choro, interpreta com inusitada sobriedade o clássico “Pedacinho do Céu”, de Waldyr Azevedo e Miguel Lima. Angela Maria relembra Chocolate e Américo Seixas em “Vida de Bailarina”. Emilinha Borba e Marlene dão sequência à saudável disputa pela preferência do público que marcou suas carreiras com “Se Queres Saber” (Peterpan) e “Lata D’Água” (Luís Antonio e Jota Júnior). Dalva de Oliveira expõe o fracasso de seu casamento com Herivelto Martins em “Neste Mesmo Lugar”, de Armando Cavalcanti e Klécius Caldas. Elizeth Cardoso é apresentada numa suave canção do suave Tito Madi: “Cansei de Ilusões” (1958). Nora Ney, a eterna musa de Jorge Goulart, canta de Denis Brean e Oswaldo Guilherme “Conselho” (“Se você me encontrar pela rua/Não precisa mudar de calçada”). Isaurinha Garcia canta “Mensagem” (Cícero Nunes e Aldo Cabral, 1945), um megassucesso que perdurou por décadas nas ondas do rádio. Inezita Barroso pede auxílio à voz generosa de Roberto Corrêa em “Cuitelinho”, firmando posição como “diva” sertaneja. As irmãs Linda e Dircinha Batista não podiam estar ausentes. Aquela canta “Chico Viola” (1952), dos excepcionais Wilson Batista e Nássara, uma homenagem ao Rei da Voz, Francisco Alves, morto naquele ano num acidente de carro na Via Dutra. Dircinha canta o maior sucesso da carreira de Cauby Peixoto, “Conceição”, de Dunga e Jair Amorim, em gravação de 1956. Não dá para parar de ouvir.

Zezé Gonzaga e Hermínio Bello de Carvalho: homenagem

ROBERTA SÁ

Uma releitura (isso mesmo!) de Roque Ferreira

Roberta Sá e Madeira Brasil: um trabalho precioso

Por Julio Cesar Cardoso de Barros

A cantora Roberta Sá lançou Quando o Canto é Reza, seu quarto CD, em parceria com o excelente Trio Madeira Brasil (Marcello Gonçalves, Zé Paulo Becker e Ronaldo do Bandolim) com 13 músicas do compositor baiano de Nazaré das Farinhas, Roque Ferreira, 63 anos. Entres as 13 faixas do disco, algumas manjadas, como Água da Minha Sede, uma parceria com o carioca Dudu Nobre, que deu título a disco de Zeca Pagodinho. O disco é produzido por Pedro Luís com direção musical de Marcello Gonçalves e reúne os ritmos nordestinos com que o baiano Ferreira costuma brindar os apaixonados pelo seu som, incluindo maxixes, maracatus e sambas-de-roda. A idéia do trabalho surgiu a partir de um documentário que o cineasta Felipe Lacerda começou a rodar em 2009, com participação de Roberta Sá, Pedro Luís e Marcello Gonçalves.


O CD: sambas-de-roda

 Publicitário e escritor, Roque Ferreira foi lançado na carreira de compositor por Clara Nunes, que em 1979 gravou de sua autoria, em parceria com Edil Pacheco e Paulinho Diniz, o samba Apenas Um Adeus. Depois disso, foi gravado por Beth Carvalho, João Nogueira, Maria Bethânia e outros intérpretes do primeiro time da MPB. Apesar da qualidade das músicas e dos intérpretes deQuando o Canto é Reza, houve quem torcesse o nariz para o tratamento dado ao disco, com arranjos fartos de cordas e menos socados do que o pilão tradicional do samba-de-roda costuma exibir. Trataram Ferreira como um ovo de indez, que fica ali paradão, cumprindo uma missão imutável e necessária à preservação do gênero. Houve quem procurasse marcas da cultura afro-brasileira na edição, sem grandes resultados. O próprio autor fez ressalvas ao tratamento dado às suas canções. Quando Marisa Monte pegou um dos melhores sambas-enredos dos anos 70 (A Lenda das Sereias, Rainhas do Mar, Império Serrano, 1976) e o transformou numa ladainha chorosa (que alcançou grande sucesso), ninguém achou que ela estava violando a matriz. Ou quando Elis Regina fez o mesmo, décadas antes, com Alô, Alo! Taí Carmen Miranda (também do Império Serrano, campeão de 1972). Talvez porque não vejam o samba-enredo como uma variedade nobre do gênero, distante dos canônicos sambas-de-roda do Recôncavo, raízes do samba carioca. Convenhamos, o disco só faz sentido porque Roberta Sá e o Trio Madeira Brasil imprimiram sua marca na interpretação das músicas de Ferreira. Eles não são “autênticos” intérpretes de sambas-de-roda dos terreiros baianos. São artistas com perfil autoral e não cantadores do folclore, palhaços da folia ou figurantes anônimos dos fandangos nordestinos. O disco é, até por isso, primoroso. Roberta Sá pode cantar cada faixa do álbum sem ter de descer do salto e pisar a poeira crua com os pés nus, arrastando o “sári pelo mercado”. Mas pode até fazê-lo, se quiser. Como negar que Mandigueiro preserva sua pureza, apesar das aranhas de um violão soberbo em arranjo de tirar o fôlego? As mesmas cordas fartas introduzem Chita Fina para a Rosa da roseira de Sinhá girar com gosto ao contraponto badolineiro do Trio, que sobra mais uma vez. Roque Ferreira é um grande compositor dos sons de sua terra, mas a elaboração de suas composições, letra e música, dele e de parceiros, são uma superação da raiz tão cuidada e protegida no papel quanto deixada ao Deus dará no rés do chão baiano.

Rosas de Ouro na avenida

Ellen Rocche: rainha da bateria da azul e rosa (Foto de Evelson de Freitas/AE)
A Escola de Samba Rosas de Ouro comemora seu aniversário de fundação no dia 22 de outubro, com uma grande festa em sua quadra da Freguesia do Ó. Uma flor de ouro reluzente, representando a majestade de Cristo, instituída pelo papa Gregório II em 730 D.C. e confeccionada por artesãos abençoados pelo sumo pontífice, é a fonte de inspiração para o nome da Escola, que completa 44 anos de existência este ano.
Fundada em 1971 por um grupo de sambistas liderados pelo advogado Eduardo Basílio, entre eles José Luciano Tomás da Silva, João Roque e José Benedito da Silva, a agremiação da Zona Norte começou seus ensaios na quadra instalada num pequeno terreno localizado numa rua escondida da Vila Brasilândia. Rua que logo ganhou o nome da agremiação. Ali, Basílio formou um time inicial muito forte, que juntou o potencial da gente local com a experiência de sambistas que foi buscar em outras agremiações, com destaque para o diretor de bateria Gilberto Bonga e o mestre-sala Manézinho – o melhor que São Paulo conheceu, aluno de Delegado da Mangueira e professor de grande número de bailarinos do asfalto que o sucederam. Bonga e Manézinho eram estrelas da Unidos do Peruche, onde Basílio foi buscar também uma Ala das Baianas. Da escola Morro da Casa Verde trouxe Zeca, compositor de grandes sambas da folia paulistana e astro de shows escritos, produzidos de dirigidos por Plínio Marcos. Edmundo e Ernani Basílio, irmãos de Eduardo, juntaram-se ao projeto e foram importantes na estruturação da escola e na sua representação junto às entidades do setor e as autoridades do Turismo. Ernani investiu na organização do barracão e na montagem do Carnaval, enquanto Edmundo representava a agremiação na União das Escolas de Samba. Estreando na avenida pelo Grupo 3, em 1971, a escola venceu o Carnaval dois anos depois.

Ritmista: a escola não descuida de sua gente
No embalo de um desfile que só encontrava parâmetros na Mocidade Alegre, a renovadora do Carnaval paulistano, a escola venceu o Grupo 2 em 1974 e chegou ao Grupo 1, no Carnaval de 1975, numa ascensão que assustou os velhos sambistas da cidade. Já no primeiro desfile entre as grandes agremiações, a escola azul e rosa conquistou um vice-campeonato com o enredo A Rua, que tinha samba de Zeca da Casa Verde. Depois de se posicionar muito bem nos anos seguintes, a escola acabou por vencer dois carnavais seguidos, em 1983, com o enredo Nostalgia (com novo samba de Zeca, autor dos sambas da escola na década de 70), cantando a São Paulo do início do Século XX, e em 1984, com A Velha Academia, Berço de Heróis, homenagem às arcadas da Faculdade de Direito do Largo de S. Francisco. Depois do bicampeonato e de um período de jejum, a escola voltaria a vencer em grande estilo, se superando com o tricampeonato de 1990 (Até Que Enfim… É Sábado), 1991 (De Piloto de Fogão a Chefe da Nação) e 1993 (Non Ducor Duco, Qual É a Minha Cara). Dois anos depois, mais um título, com o enredo Sapoti, uma homenagem à cantora Ângela Maria. A concorrência desde então se fortaleceu, com a ascensão da Gaviões da Fiel, da Império da Casa Verde e da X-9 Paulistana, que passaram a lutar por títulos, e a agremiação da Zona Norte de São Paulo amargou um longo período de 16 anos sem vencer. No Carnaval deste ano de 2010, no entanto, ninguém superou a agremiação de Basílio, que não assistiu à mais recente glória de seu grupo. Morto em 2003, ele foi sucedido pela filha Angelina, atual presidente, e não viu o enredo exaltando a riqueza do cacau, com o qual a escola venceu seu sétimo título no grupo principal do Carnaval da cidade, superando sua vizinha do Bairro do Limão, a Mocidade Alegre, por apenas 0,25 ponto. A Rosas de Ouro desenvolveu um sistema de confecção que lhe permitiu, ainda nos anos 70, controle absoluto da qualidade das fantasias. Além de centralizar a produção para manter uma padronização, a escola se antecipava e conseguia aprontar as roupas muito antes do Carnaval, com tempo para reparos e aperfeiçoamentos, fugindo da tradicional correria de última hora, que era uma tradição do Carnaval paulistano. Artesãos da própria escola foram treinados para a execução de adereços e auxílio na montagem dos enredos, fornecendo mão-de-obra qualificada aos seus carnavalescos.

Alegorias grandiosas feitas por carnavalescos e artesãos da casa
Ainda nos anos 70, a quadra acanhada dos confins da Brasilândia ficou pequena e Basílio buscou um local mais acessível aos sambistas de toda a cidade, que começaram a se interessar pela nova agremiação. Um terreno amplo junto à ponte da Freguesia do Ó, na rua Coronel Euclides Machado, passou a abrigar uma enorme quadra coberta onde a escola montou seu atual quartel-general, palco de seus ensaios pré-carnavalescos sempre muito concorridos e de shows de grandes nomes do samba. A localização e o bom desempenho da escola atraíram um público pouco acostumado com o ambiente do samba. Caravanas de simpatizantes e futuros componentes da escola passaram a chegar da Zona Sul e dos Jardins, fazendo da agremiação uma referência de bom programa para uma noite de verão.
Fantasias bem cuidadas: marca registrada da escola
Em 1998, Marcos Eduardo Monteiro, dono de bar no Jardim Paulistano, criou o Trem das Onze, um comboio sobre pneus que saía de seu estabelecimento às 22 horas do sábado levando cerca de cinquenta pessoas aos ensaios da escola. A fama de anfitriã acolhedora atraiu celebridades, como o craque Raí, destaque nos carnavais de 2003 e 2004, Adriane Galisteu, rainha da bateria em 2005, e Ellen Rocche, que a substituiu, e ainda hoje desfila à frente da bateria. Até o astronauta Marcos Cesar Pontes foi atraído pela azul e rosa e desfilou como destaque em 2008. Se de um lado atraía um público seleto, de outro a escola não descuidava da vizinhança. Os sambistas de Vila Brasilândia e da Freguesia do Ó nunca deixaram de ser prioridade da direção. No local onde montou sua morada definitiva, a escola fincou raízes profundas, que a levaram a um trabalho social forte, incluindo a retirada de crianças das esquinas do bairro para atividades na quadra. Em 1997, sua então rainha de bateria Luciana Maria Pereira, depois de dois anos de trabalho junto à comunidade, foi convidada para o cargo de assessora da Secretaria Municipal da Família e do Bem-Estar Social para desenvolver projetos com menores carentes. Longa vida à Roseira.

Rosas de Ouro: 39 anos de história e bons carnavais


sábado, 6 de fevereiro de 2016

RODRIGO CAMPOS

Direto de São Mateus



Por Julio Cesar Cardoso de Barros

Uma gratíssima surpresa surgida de uma das regiões mais problemáticas da cidade de São Paulo, o CD São Mateus Não É um Lugar Assim Tão Longe (Ambulante Discos) revela o talento de um músico de múltiplos talentos. Rodrigo Campos, 33 anos, que chegou à área aos três anos de idade e por lá passou a infância e adolescência, escreve boas letras, compõe, faz percussão, toca violão e cavaquinho. E faz isso tudo muito bem. Ele estudou teoria musical, ganhou cancha tocando na noite, em estúdios de gravação e shows, acompanhando astros do naipe de Dona Ivone Lara, Paulo Moura, Altamiro Carrilho, Celso Viáfora, Fabiana Cozza  e Maria Rita. Estreou como compositor no disco do grupo Urbanda, que integrou no início dos anos 2000. Tem músicas gravadas pelo Quinteto em Branco e Preto, Mariana Aydar, Fabiana Cozza, Dayse Cordeiro, entre outros.  

Nesse disco de estréia na carreira solo, cada verso insinua um soco no estômago, mas é um afago no coração. Vá lá, há uma monotonia temática, uma modorra de cena sub-suburbana que remete às obras-favela abundantes no meio musical, televisivo e cinematográfico. Mas ao cantar a rotina do jovem trabalhador da periferia, no samba Fim da Cidade, entre bilhar, futebol, samba, metrô e trampo duro, a voz de Rodrigo é macia e sutil como a brisa (Ouça Fim da Cidade como está no disco: http://www.myspace.com/saomateus).

Tudo se ilumina, a dureza cede lugar ao lirismo, quando o amor floresce na Vila Sônia, à beira do campo, sob o som de tropete, baixo eletrônico, piano e flughel (Amor na Vila Sonia). Em Os Olhos Dela, Rodrigo vai para o fundo do palco cuidar do cavaquinho, do violão e do tamborim e deixa sob os holofotes a doçura de Luísa Maita (parceira e colega de Urbanda, veja texto abaixo). Mais dos arrabaldes, trem, café, cancela, bar da estação, romance, amor no chão. Não se engane. O som é suave, mas denso. É de Rodrigo o repique nervoso e o cavaco de centro a nos lembrar que estamos sambando em São Mateus. Vapor, pistola, favela, correria. Rimas com periferia. Um violão de 7 cordas (Edmilson Capelupi) deixa tudo mais clássico em Rua Três. O trombone de Sidnei Borgani anuncia que a briga é de cachorro grande, crônica do dia-a-dia, namoro, minas, bronca e gurufim, cenas em que Rodrigo retorna a São Mateus, mostrando à cidade que o bairro, afinal, não era tão longe assim.


    O CD: São Mateus é ali

Um disco de qualidade e talento inusitados, por trás do mote surrado pela ação pouco inspirada do rap periférico. Com boas letras, bons arranjos, interpretações comedidas, Rodrigo Campos é um artista pronto. Escoltado pela tropa de bons músicos (Beto Villares, João Lenhari, Ubaldo Versolato, Antonio Pinto, Curumin, Benjamin Taubkin, André Édipo, Missionário José e Gui Amabis e os já citados), um time de responsa, ele mostra muito mais do que aprendeu nas rodas de samba do lugar onde cresceu. Mostra que talento não é para qualquer um. Embora redunde no tema da área, Rodrigo Campos é mais que São Mateus. Mesmo que ele não queira.

O bairro
São Mateus é um bairro da Zona Leste de São Paulo distante 22 quilômetros da Praça da Sé, o marco zero. Surgiu de um loteamento criado em 1946 e oficializado dois anos depois pelo prefeito em exercício Milton Improta. É uma das regiões mais pobres da cidade e tem fama de ser um lugar violento. O 49º Distrito Policial figura entre os dez mais movimentados em número de ocorrências graves. Mas São Mateus é um bairro de trabalhadores, que com grande dificuldade se deslocam para trabalhar nas regiões mais centrais da cidade ou estão ocupados no crescente comércio local. Calculam-se em quase meio milhão de pessoas os habitantes da região administrativa da qual São Mateus é sede, gente que luta para ter uma linha do metrô que atenda com algum conforto à demanda por um transporte eficiente. O plano de levar até a região o metrô leve patina e há dois meses foi suspenso o edital para concorrência da obra. Em 2000, o bairro ganhou seu primeiro cartório de Registro Civil e hoje luta pela implantação do fórum na região. Criado em 2000 por Lei Complementar promulgada pelo então governador Mário Covas, ele ainda não foi instalado.


Luísa Maita




Luísa Maita, autora de Madrugada e Amado samba, músicas gravadas no terceiro disco da cantora Virgínia Rosa, brilha no disco de Rodrigo Campos. E quem gostar de sua voz poderá ter mais, pois a cantora e compositora paulista lança seu primeiro álbum, Lero-Lero (Oi Música), hoje, terça-feira. Com influências múltiplas, que vão da música pop e eletrônica ao samba e à bossa nova, o disco terá (além da distribuição no formato tradicional de CDs) suas faixas disponíveis para ser baixadas em formatos digitais (ringtones, truetones, ringbacktones e fulltracks dual delivery com DRM Free – faixas completas – no celular e computador), incluindo o download do álbum completo. Será lançado, também, um aplicativo que possibilitará levar o disco para plataformas Apple (iPhone, iPod touch e iPad). No aplicativo, ainda, notícias, fotos, agenda de shows e uma rádio especial de Luísa, onde os fãs poderão ouvir todas as músicas e assistir a vídeos da cantora.

VEJA.COM 27/07/2010

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Trio e duo no Centro Britânico

Aulustrio: Osvaldo Lacerda de Glauco Velasquez (Foto: Marcelo Donatelli)

O Centro de Música Brasileira apresenta no dia 19, sábado, às 20 horas, o trio Aulustrio, formado por Paulo Brucoli (piano), Fabio Brucoli (violino) e Mauro Brucoli (violoncelo), que interpretará peças de Osvaldo Lacerda e Glaudo Velasquez. Na segunda parte do programa, o duo formado pela violinista Tânia Camargo Guarnieri e a pianista Araceli Chacon. Elas interpretarão peças de M. Camargo Guarnieri, Villa-Lobos e Lacerda. Na Sala Cultura Inglesa, Rua Ferreira de Araújo, 741 
Pinheiros, São Paulo (Tel: (11) 3039 0500), com entrada grátis. Veja o programa completo e mais informações sobre os músicos e o repertório abaixo.

Tânia Camargo Guarnieri e Araceli Chacon: Villa-Lobos, Lacerda e Guarnieri